pontas

lost in cheap delirium #2



e um dia resolve sair de casa. não sabe porquê, mas está disposta a ver o que o mundo tem para lhe oferecer. está um dia solarengo e o sol fere-lhe a vista e queima-lhe a pele, mas recuar não está nos seus planos. segue o seu caminho ao encontro do acaso. nunca se sentiu tão corajosa.
por vezes pára para observar as pessoas. traços tão bonitos, movimentos tão sublimes merecem ser observados com atenção. e depois os sons. sons esses que dão vontade de dançar. rodopiar até não aguentar mais e cair no chão. as vozes, o sorriso entre amigos, o bater do coração dos enamorados, a gargalhada de um bébé, os passos na calçada de todos aqueles desconhecidos. nunca se sentiu tão feliz.
de repente, sentiu uma aragem fria e sem dar por ela, uma forte chuva cai sobre todos. enquanto toda a gente corre para se esconder da chuva, ela fica parada no meio da rua. fecha os olhos e abre os braços, como se de um ritual de boas vindas se tratasse. como se quisesse abraçar a chuva e sentir-lhe o sabor. a chuva gela-lhe a pele, mas aquece-lhe os sentidos. o sabor da chuva, o cheiro a terra molhada, o frio que sentia por todo o corpo... nunca se sentiu tão viva. nunca se sentiu tão.


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    strange little girl (tori amos)
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(no subject)


«Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terriveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstrações que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?»

in Os passos em volta - Estilo, Herberto Helder

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    für alina (arvo pärt)
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constatação




é de mim que tenho medo, não do mundo nem das pessoas que vivem nele, mas de mim e de mim apenas. medo de me perder na ilusão do ser, do ter, do sentir. medo de me perder na imensidão das coisas e não aguentar a beleza do mundo. tenho medo de me envolver demasiado, perder o controlo e não saber voltar a mim. tenho medo de perder a minha solidão, companheira dos momentos mais e menos difíceis e não saber como lidar com isso.

e se eu perco a minha insanidade? como é que vai ser no momento em que deixar de ralhar no meio do metro por ver bilhetes espalhados no chão, quando existem caixotes do lixo logo ali? como vai ser quando deixar de questionar a minha existência e aceitar tudo como se fosse natural? vou deixar de ser eu. e se isso acontecer, como vou reagir com o novo eu? levei 21 anos a aceitar-me, não quero voltar atrás. agora sinto-me confortável com o que sou, se mudar que seja para melhor.

gostava de dizer coisas bonitas, mas de momento não consigo pensar em muito mais do que isto. a mudança que se avizinha preenche-me o pensamento e dá-me pouco espaço para pensar noutras coisas. estas duas semanas que se seguem vão ser as mais difíceis dos meus 21 anos. e as mais pesadas.


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    toes (norah jones)
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lost in cheap delirium #1



é tudo tão vago. há um céu enfeitado com nuvens e uma estrada enorme à minha frente e o medo de dar o passo é maior. maior do que deveria ser. é muito mais fácil ficar a ver a vida do lado de fora. essa opção é realmente muito tentadora, mas só de pensar nisso dá-me náuseas. fecho os olhos e respiro fundo, mas as pernas não me obedecem. o medo paraliza-me e a única coisa que consigo mover é o pensamento. esse não pára! de um lado para o outro, diz, contradiz. parece não haver nada que o pare. tento mover a cabeça para ver o que se passa à minha volta, mas não consigo tirar os olhos do horizonte. parece que estou à espera de algo. como se alguma coisa pudesse surgir de repente e me fizesse mover. era preciso estar atenta. pensar nisso fazia-me sorrir. acreditar que poderia haver algo suficientemente forte que me fizesse esquecer o medo de viver, enchia-me de esperança. enquanto sonho acordada, esqueço-me que o passo tem de ser dado. mais cedo ou mais tarde. que seja mais cedo.



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    somersault (zero7)