asylum (coracao_de_cera) wrote,
asylum
coracao_de_cera


ao atender o telefone, reconheci a voz de alguém que não vejo há muito tempo. caí. caí sem ninguém dar por isso. continuei a sorrir, com uma voz alegre e antes que começasse a chorar, passei o telefone à minha mãe. é uma prima de Peniche. uma prima que não vejo desde... desde que o meu avô ficou doente e de cama. há oito anos. afastámo-nos porque somos todos muito orgulhosos. no fundo é isso - orgulho. Peniche, aquela casa, aquelas pessoas, eram o meu refúgio. era lá que me escondia. foi lá que passei os meus onze aniversários.

tenho tantas saudades!... da minha infância passada lá, das pessoas, das crianças com quem brincava, dos meus primos, da praia, da casa, do seu cheiro... do meu avô. do meu avô na varanda e da minha avó a acenar da janela da cozinha e da minha cara pequenina colada ao vidro do toyota velho com um sorriso maior do que mostrava. subia aquelas escadas a correr para ir ao encontro do meu avô e lembro-me de não ter braços suficientes para o abraçar.

não me deu tempo para crescer - morreu-me cedo demais. sinto falta do seu abraço forte, do seu sorriso, das suas bochechas, de me encostar à sua barriga, de passear consigo na lota, de brincar consigo. sinto tanto a sua falta avô! e peço-lhe desculpa por, naquela altura, acreditar que seria melhor se tivesse morrido no seu lugar, mas a ideia de lhe perder era-me insuportável. eu via a falta que iria fazer - e que ainda faz - a todos nós e era tudo doloroso demais.

lembro-me do primeiro pensamento que tive quando faleceu. «agora o meu avô vai poder ver-me dançar». de momento, não tenho tanta certeza se isso alguma vez aconteceu. e tenho medo. tenho medo que tenha andado perdido, sem saber ao certo o que lhe aconteceu ou para onde ir. tenho medo que o seu sofrimento tenha-se prolongado mais do que os 3 anos que esteve acamado. tenho medo que a minha tristeza e consequente descrença, o tenha prejudicado. (desculpe-me.)

as saudades que tenho de si, avô, são mais do que alguma vez conseguirei exprimir. nunca conseguirei mostrar a falta que me faz. não existem palavras que o consigam fazer. é demais. talvez as minhas lágrimas consigam. talvez as minhas lágrimas. talvez. talvez...

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